Quem Somos
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A peculiaridade do nosso trabalho dramatúrgico consiste na fusão entre Teatro e Recriação Histórica, aliada a um conceito de Teatro de Rua, feito de momentos aparentemente dispersos que ocorrem num espaço e tempo e agindo sobre eles. A Feira tem sido o nosso Laboratório de experimentação onde temos procurado este Teatro ao Vivo que também é História ao Vivo.
Não se trata apenas de encenar Teatro dentro de um contexto de evento, a Festa da História. Trata-se sim de nesse contexto actuar de forma aparentemente desconexa, mas organizada, através de actores e figurantes com papéis bem determinados, recriando por um lado a nossa leitura do tempo histórico e construindo em simultâneo uma dramaturgia global. Assim podemos dizer que a peça que representamos é a Feira, na consciência de que apenas dominamos uma pequena parte do seu desenrolar, já que o público é sua parte integrante, colocando o improviso como condição necessária à acção. Para que tal aconteça é necessário conhecer a sociedade, os seus estratos e mobilidades inseridos no contexto económico, as leis do comércio, as finuras do negócio e a aprendizagem social como base pertinente para a compreensão de uma época. Os Visitantes se munidos do passaporte da compreensão poderão muito mais facilmente fazer a viagem no tempo. Esta pode ser a suprema diferença entre envergar simplesmente um traje ou vivê-lo na sua plenitude, sentindo-o como uma segunda pele. A vida, outrora, era aborrecida na sua rotina do dia a dia. Uma romaria anual, uma feira de tantos em tantos meses, um esponsório pontual, uma passagem de um tribuno romano uma vez na vida, um enforcamento de quando em quando, a esporádica passagem de uma carroça de saltimbancos eram os acontecimentos que marcavam a vida do camponês e com os quais calendarizava a sua própria existência. Na recriação o processo é acelerado. Numa só jornada confluem vários acontecimentos com o objectivo de proporcionar uma vivência de décadas num mesmo dia. A recriação histórica tem o seu lado lúdico e deve cativar o espectador. Num só dia são-lhe dados a vivenciar vários episódios de uma época, procurando-se enquadrá-los, ordinariamente, na moldura de um mercado. Mesmo que haja uma batalha, a vinda de um emissário régio, um torneio de armas, um assalto ao forte, a chegada dos saltimbancos ou a passagem de romeiros, o enquadramento cenográfico é o mercado de bens e produtos.
Ir ao encontro da recriação histórica significa encontrar um espaço simultaneamente lúdico e cognitivo dentro do contexto da comunidade social. Espaço de intervenção, por excelência, a recriação histórica assume-se como um laboratório de experimentação, apostando na criatividade imaginativa em íntima aliança com o apuro do rigor documental numa efectiva dinâmica de participação vivencial e vocacionada para o entendimento histórico do meio. Partindo desta concepção de desenvolvimento local, o projecto privilegiará todas as instituições e associações locais que se mostrem sensibilizadas para a abordagem temática supracitada. Será nesta moldura que se desenrolará o alinhamento proposto, desenrolando-se as actividades ao longo das jornadas. E será para esta moldura que se preparará a comunidade. E para que nada fique ao acaso e, em simultâneo, para que tudo pareça natural e espontâneo, é fundamental que todos os participantes saibam exactamente qual é o seu papel na recriação histórica. Em toda a Europa, da reconstituição de uma batalha à mais localizada recriação de um acontecimento histórico local, a História ao Vivo é uma realidade em crescimento. Calculamos que em 2008 se tenham realizado em Portugal mais de 120 Feiras Medievais e Quinhentistas de média ou grande dimensão, e pelo menos outras tantas recriações de outras épocas históricas. Algumas estão firmemente implantadas, e são já ex-líbris locais. A Feira Medieval de Coimbra (com uma peculiar ligação a grupos amadores, associada ao melhor rigor histórico que encontramos em Portugal), a Viagem Medieval de Santa Maria da Feira (enraizada nas colectividades locais e que se destaca pela sua dimensão), os Dias Medievais de Castro Marim, talvez o principal cartaz da pequena sede de concelho escondida do mar por V. R. S. António, a Feira Medieval de Silves cada vez mais vocacionada para a recriação da época moura, o Festival dos Descobrimentos em Lagos festejando a saga dos nossos mareantes, a Braga, vulgo Braccara Augusta, engalanada à maneira romana assim como a Praça de touros de Alter do Chão transformada em Circo Romano, as Invasões francesas em Almeida, ou o Mercado Medieval de Óbidos, apoiado numa excelente participação local e numa apurada procura do rigor histórico procurando ser uma das imagens de marca de uma das principais referências do turismo histórico português. A estes exemplos acrescentem-se as Recriações de Lamego, Silves, Trancoso, Canas de Senhorim, Belver, Sabrosa, Valência do Minho, Almodôvar, Avis, Vidigueira, Monsanto, Penela, Elvas, Serpa, Seixal, Sagres, Valença, Ribeira Grande, Montalegre, Penha Garcia, Alvalade do Sado, Paderne, Montemor-o-Novo, Penela, Idanha-a-Nova, Arganil, Machico, Porto Santo, entre tantas outras. Pela nossa parte, assiste-nos o privilégio e a honra de participar em mais de 80% dos eventos de cariz histórico em Portugal (continente e ilhas) e de, regularmente, participarmos em recriações em Espanha, França e Itália. Em 2009, a Companhia de Teatro Vivarte totalizou 112 dias medievais (do séc. X ao séc. XIV), 14 dias quatrocentistas, 18 dias quinhentistas, 12 dias seiscentistas, 21 dias setecentistas, 18 dias romanos, 20 dias mouros, 15 dias hebreus, 7 dias fenícios, 9 dias piratas (séc. XVIII), 25 dias novecentistas (entre invasões francesas, guerras liberais e finais do século XIX), 6 dias pré-históricos (3 dias no Paleolítico e 3 dias no Neolítico) num total de 329 dias de Animação e 33 dias de Formação. Ao longo do ano, realizaram-se 81 ceias históricas de várias épocas, 32 assaltos a castelos, 3 assaltos a barcos, 4 batalhas campais, 5 circos romanos, 22 corridas de carroças, 94 espectáculos de fogo, 37 torneios apeados, 58 torneios a cavalo, 88 teatralizações, 81 Autos de Fé, 68 espectáculos de malabarismo e 62 animações.
Teatro e Recriação são precisamente os melhores aliados da Educação se entendidos como Pierre Voltz : …” não basta ensinar aos jovens a fazer teatro, é preciso ensinar-lhes a sentir o mundo.” |








